Os pensamentos que não conseguiram voar pela janela.
Porque hoje me disseram o quanto eu preciso sofrer pra viver. Plenamente, foi a palavra.
Porque todo mundo sabe disso, e tudo dói, e, de repente, tudo passa.
E todo mundo precisa das palavras. Não das que eu digo. Bem que eu queria que isso fosse necessário. Mas como eu não preciso sofrer, pq eu não procuro, ele vem sozinho. E foram dois dias desde que ele se abaixou pra amarrar meu tênis.
Ninguém podia precisar das minhas palavras porque eu só escrevo pra mim mesmo, como cartas em que eu me respondo. E todo mundo precisa andar despindo a alma em palavras, porque o que a gente pensa são palavras, e o que a gente constrói são palavras.
E, de repente, eu nem tava procurando respostas e elas surgem;
E, de repente, me falta o ar no meio da noite, mas ele volta.
Porque alguém me perde e depois a gente se encontra de novo.
Me disseram que a vida é isso aí também: não a compreensão, mas a tentativa. Quem liga pra o que é a vida? Eu cansei de ficar olhando pra longe, longe, e perdendo o pedacinho de árvore que eu vejo pela janela do carro. E perdendo o desenho esquisito que as migalhas formam no pano da mesa.
Todo mundo faz isso, mas ninguém faz igual. E quando eu for procurar autoconhecimento, eu quero ver só as pessoas felizes em salas comerciais minúsculas e senhores conversando em bancos de ônibus e um sorriso num rosto enrugado.
E eu preciso de pouco, bem pouco, pra ser feliz. Mas eu preciso de mais, muito além do que me dizem que preciso.
Escrito por izadora_x às 22h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
I´m so flexible in joy that I often fall to pieces
Não sou eu aqui, nem lá; e, de repente, sou eu em todos os lugares.
No dia em que meus sonhos morrerem,
enterrem-me junto com eles.
E a fétida realidade alimentará
a frutificação das frondosas copas
das árvores que nascerão sobre a minha cova.
Escrito por izadora_x às 16h29
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

Você planta em mim sorrisos
Planta aléns em fachos de penumbras acesas
e entre nós dois
lagos plácidos de gentilezas.
Eu sou rachadura de minérios,
solo infértil para carinhos.
Quem semeia música
só pode colher violetas, rosas sem espinhos
derramadas em meu olhar...
Quem planta poesia
É porque espera a gravidade da vida
Derrubar frutos de amor no seu pomar.
Escrito por izadora_x às 20h47
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
The Morning After
Hoje eu não podia querer morrer. Porque ela varria, tão, tão bonita. Um pé e o outro, segurando o chão só com as pontas dos dedos. Elaborava uma coreografia leve, como sem querer espantar a poeira, sem deixar que ela assustasse, levantasse vôo e fugisse. Era uma doce, etérea estratégia. A leveza dos pés era seguida pela firmeza da vassoura que reunia, contra a vontade, todas as partículas que corriam, sem qualquer limitação, pelo piso.
Depois ele. Eu acordava sem saber que o despertar tinha sido a entrada para o espetáculo na sala. Parecia combinado. Ela dançou, dançou, levantou o braço e mais determinada que qualquer raio de sol entrando pela janela, passou a vassoura para ele. Ele já espera, ainda que desavisado. Pega a vassoura, mas já não é o mesmo movimento. Ele parece um pintor, pincelando a limpeza por cima da sujeira ainda adormecida da noite. Docemente acariciando com as cerdas toda a extensão restante do cômodo. Braços, pernas e luzes da manhã não têm peso.
Eu, costas sobre as almofadas do sofá, tenho todo o peso do mundo. Eu sempre sou a mais pesada do ambiente. Imagens entrando pelos olhos pesam nos nervos. O som das palavras familiares, incrível não serem roteirizadas, pesam nos ouvidos. As carícias que não eram sensações fora do sonho, pesam sobre todo o corpo. O café da manhã ainda não digerido pesa no meu estômago. Toda a vida, que ainda não aconteceu, e vai tomando forma sem que eu possa, nunca, nunca, controlar o volume do sopro que eu solto e tomo de volta do ar, pesa nos meus sonhos. Ah, e estes, sem qualquer influência externa direta, pesam uma tonelada.
Que horror, a idéia de um spa de sonhos. Que feio, tudo que não são as fotos da minha imaginação. Não fiquei até a cortina descer porque, em algum momento, me varreram pra fora, junto com a poeira. Foi a alergia que encheu meus olhos de água.
Escrito por izadora_x às 20h44
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|