Há metafísica o bastante em não pensar em nada.


Il y a une parfum fantôme du solitude dans l'air. Il a fait le ciel plus rosé aujourd'hui.

Je n'ai pas des mots.

Je les avais, mais je ne sais plus à oú ils s'èrent.

J'espére les encontrer...bientôt.



Escrito por izadora_x às 21h12
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Eu tive esse sonho no outro dia, naquele momento de sono mais leve, no calmo mormaço depois do almoço. Na verdade, não foi um sonho, foi um vidência.

Esse tempo é errado pra nós, não é a impressão que você tem? A gente se desloca, mesmo inconscientemente, dessa década tão explícita,com tão pouco charme e com tão pouca fumaça. Isso, isso aqui, essa sensação de "eu sei como acaba" é o reflexo dessa aguda noção. Não preciso esperar você me acreditar para manter a convicção. Não pode ser só desejo; foi a esta outra época que eu, antes de tudo, pertenci.

Todos os dias eu usava uma sombra escura sobre os olhos. Todas usavam sombra então. Os olhos diziam muito mais, menos havia pra se dizer, mais se sabia como dizê-lo; castanhas retinas, caminho para saber que não havia caminho, nem tempo além dos longos olhares que se iluminam e respondem tudo, contraste com o escuro das pálpebras e das olheiras. Porque quem vive mais tempo, em mais de um tempo, tem olheiras profundas - bolsas onde guardam os olhares extras que têm para compartilhar, repartir e entregar para aqueles que ainda não aprenderam a despir-se pelos olhos. Era isso que as pessoas na década de trinta faziam, aprendiam a se despir, nus tornozelos e olhos quase obscenos, vestidos de maquiagem preta.

(Engraçado o fato de você acreditar ainda pertencer à cidade, e eu não.)

Eu fumava intermináveis cigarros, segurava bandeiras de sufragette, pupila de Anis Nin. Eu era amenhecimento de mulher, só no mundo, como as mulheres sempre foram; trabalhava como secretária, em um escritório qualquer - não te parece profissão de mulher independente? De dia, eu usava chapéu. À noite, eu vestia-me de noite e em pequenos cafés colhia flores desses boêmios jardins. Paris cheira a imensos jardins de boêmia e arte, por mais que eu nunca tenha cheirado Paris.

Você era a boêmia, charuto de aromas adocicados por sobre trêmulas notas de piano. Seu automóvel e seu pai rico. Em mim, encontramos sempre o mesmo sentimento. Lembra quando eu te assustei por saber do amor que não é sentimento que existe, mas é sentimento da gente, produção de plenitude, ao misturar em todas as pessoas essa melancolia alegre que me define; essa necessidade de riso entre lágrimas. Se eu sei se todas as pessoas sentem igual? Não existe sentimento novo, só esse mesmo velho sentimento desgastado de terem nos ensinado a esperá-lo, de o imaginarmos e o prevermos, mesmo quando olhamos pro passado. Tudo nessa nossa vida é gasta, já foi vivido, e, antes de sentirmos, já é passado.

Juntos, bebíamos, como bebemos, vinhedos. Inebriados, você me beijava a pálpebra, e seu lábio inferior guardava um sinal da escuridão que em mim eu esperava encontrar em ti. Tão doce teu lábio assinalado por mim, que a dor pareceria menos dor. Todos os cenários de novos mundos que conhecemos hoje, foi lá que se nos abriram.

Obviamente, você seria enfim guiado, meus sonhos sempre são guiados pela realidade, docemente, até outra, a correta. Uma sem maquiagem parecendo atriz, que não é profissão séria. E, afinal, sempre soubemos que eu não era esposa. Casar-te-ia com os longos robes e o conhaque, e a postura de gentleman que te carrega para os caminhos tributáveis do respeito; o mundo é isso de não ser triste, nem errado, nem certo, de ser o mundo.

Eu sou outro lado da cidade, daquele das mulheres que não são, mas bem parecem ser. Amamentei crianças que não eram pro meu seio e ocupei casas de chá. O chá é tão mais sério que o café, acalma aquelas fibras que outras quantidades de cafeína acordam. Eu já disse que as mulheres sempre foram sós? Algumas vezes amantes, as que eu sempre quis ser e a que eu fui.

Lembrei, prelúdio do despertar, que morremos bem velhos. E eu, até hoje, guardo nas falanges a saudade da tua mão.



Escrito por izadora_x às 22h06
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