Há metafísica o bastante em não pensar em nada.


Joana a louca de Espanha

tem um apartamento na 314 norte

todo dia às dez para as duas

senta-se na janela a polir pela tarde

sua coroa de orquídeas cor-de-rosa

mão segurando o queixo

fita o homem a passar correndo

carregando nos braços sua caixa de tomates

embalando-os como rosados bebês europeus

- nessa terra em que os bebês são mulatos.

Esse homem é aquele mesmo homem

aquele que viola as mulheres

e a monarca varrida então pensa os homens que violam mulheres são também violados.

Às quatro em ponto

quando as pétalas da sua coroa estão desbotadas

Joana a louca de Espanha

desfaz então suas tranças

que como as de Rapunzel

- mas não era Rapunzel francesa? -

espalha-se pela quadra invade as casas

vizinhas moram as mulheres de vida-mais-difícil-do-que-se-imagina

e Joana sorri sabendo

a vida das mulheres da vizinhança grudando-se a seus cabelos

perdidas são todas as vidas

e continuamente estamos nos perdendo.

Chora a rainha dos homens sãos coroada

exatamente por ser lunática.



Escrito por izadora_x às 19h58
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Ah, se se soubesse...



Escrito por izadora_x às 19h55
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Momento, dos inesperados, o que mais inesperdamente encontra os olhos; invólucro da insensi
bilidade, um rosto que não se diria guardar qualquer coisa de sublime, assim, sob aquelas
luzes fortes e frias, fez brotar o beijo que se escondia, ao que considerariam inexistente.
Não aquele do desejo simples e primitivo, nada de ânsia, essa sim, possivelmente justifica
da, mas os olhos. Fechou os olhos ao acariciar a bochecha dela com os lábios, tão doce, doce
que não sobrou sal nas gostas desenrolando-se pelas têmporas. Por um momento construiu-se a
inocência, como paz sobre os campos onde a morte recolhe seus batalhões, única vitoriosa;
toda a música calou-se, não se podia mais ouvir coisa, porque ele fechou os olhos. (A bruta
lidade construindo uma leveza de expressões, como uma mão calejada plantando na maçã de
outro rosto sua boca, cheia de um humús que é flor de orquídea sob o sol). Como uma brisa
fria o ar todo se revestiu de reverência por aquele gesto, resumo de todo o afeto possível.
De todos os olhos,
aqueles eram os que podiam se fechar ao estalar carinhos na pele alheia, quando pela vulnera
bilidade as íris se abrem para todos os sentidos. Ganha o momento a sensação daquela expres
são, desembaraçada pelos fios de cabelo e doce pelo amargor, a delicada expressão daqueles
traços rudes. É tão bonito quando se beija sorrindo.

Escrito por izadora_x às 19h45
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