A fumaça do café lembra o almoço comido sob uma espessa neblina de silêncio. Silêncio forçado, que é como fumaça de óleo saindo do fogão e engordurando o rosto, depositando-se nos poros. Mas o silêncio agora é leve, refrescante, este arzinho de chuva deixando mais viçoso o verde das plantas. Vício escorpianino do belo, eu olho pra estrutura de ferro.
- Pode continuar lendo, não me importo.
E me quedo na Mongólia, onde monjas carecas são estupradas – caminho para a iluminação de um homem. Aí parece que eu coloquei essa frase de propósito. Porra, muda o disco, ninguém agüenta, assunto menor, fica batendo sempre na mesma tecla. Dessa vez, juro, não tava procurando, surgiu assim tipo ele brandamente expondo minha hipocrisia. É essa candura – não, eu não a tenho – que torna qualquer assunto, incluindo o silêncio, plausível.
- Você não pode generalizar, como eu também não. Mesmo assim, isso não anula nenhuma das duas opiniões.
Então a história pula pra outra mesa, onde um senhor é apresentado a uma menina de três anos que usa um casaquinho vermelho. Sofia aperta a mão do amigo do pai ainda no colo deste. Essa massa de amêndoas me acalma, e amanhã será o dia em que, desapegada das horas que escorrem roubando a elasticidade do rosto de Sofia, perceberei, observando-me sentada numa janela fora de mim, o tempo passar lento e espesso como o silêncio do domingo.
De uma parte de mim ele se expande e se encontra com aquela pessoa nela; eles não podem terminar juntos. Dos meus três projetos de livro, três teriam milhões de significados subliminares para fortemente contrastar com a falta de significado em tudo.
- Como você sabe que só porque você acha, algo de fato não aconteceu?
De todas as possibilidades, nenhuma incluía os dois terminarem juntos. Ainda assim, ela acabaria se virando sem ele quando toda a merda acontecesse. Tá, mudarei o disco em seguida – mas é que de outro jeito eu fico melancólica o resto do dia.
Escrito por izadora_x às 20h31
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